Este é um espaço democratico, falarei de família, amigos, religião, política, trabalho, universidade, cultura, esportes, festas, bebidas e etc...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O DEPUTADO E O LIBERALISMO

Um desses deputados recém-empossados disse que dedicará seu mandato a combater o liberalismo e o neoliberalismo. Pensei: “Posso discordar, mas quem sabe ele traga um pouco de cultura e inteligência para elevar o nível do debate no parlamento”. Minha esperança durou pouco e acabou quando o repórter perguntou como o ele iria para esse combate. “Vou defender a criança, o jovem, os idosos e as mulheres. E vou exigir mais emprego, mais saúde e mais educação”, foi a resposta.

Primeiro, tentei ligar causa e efeito. Pelas propostas que o nobre parlamentar irá defender, ele deve achar que o liberalismo e o neoliberalismo sejam contra a criança, o jovem e o idoso e a favor de menos emprego, menos saúde e menos educação.

Fiquei um pouco confuso ao tentar entender sua escolha de defender “apenas” a criança, o jovem, os idosos e as mulheres. Pensei: “A quem ele não defenderá?”. Quanto às mulheres, ele defenderá todas, conforme as mencionou explicitamente em conjunto. Quanto aos homens, ele defenderá a criança, o jovem e o idoso. Não mencionou o conjunto dos humanos machos, mas partes dele. Quem ficou de fora?

Será que os bebês estão incluídos no conjunto “crianças”?. Se sim, estarão protegidos. Se não, essas criaturinhas ficarão sem as mãos salvadoras de sua excelência. Seguindo, imaginei que entre a criança e o jovem não exista qualquer lacuna; logo, aqui todos serão abençoados pelas ações do bom homem. Na sequência, considerei-me inapto para solver o quebra-cabeça. É que não me informaram com que idade o homem deixa de ser jovem nem a idade em que começa a ser idoso. Se entre a última idade do jovem e a primeira idade do idoso houver um espaço, teremos aí um conjunto de pessoas (adultos que deixaram de ser jovens e ainda não são idosos) fora das atenções do nobre deputado.

De duas uma: ou existe uma espécie de “adulto” que nem é jovem nem é idoso, e aí o nobre deputado estará sendo cruel ao não abençoá-los com suas graças, ou não existe esse “adulto”, logo, ele defenderá a todos, homens e mulheres de todas as idades.

Ironias à parte, sejamos francos: temos aí uma mistura das duas piores pragas de nossa política, a ignorância e a demagogia. A verdura pura e simples é que tal deputado não tem a menor ideia do que está falando e é apenas uma amostra da indigência intelectual da política brasileira.

O liberalismo nada mais é do que um movimento, gestado no século 18, a favor da liberdade e dos direitos individuais e contra a opressão das massas e os poderes ilimitados do governo. Essa doutrina atribuiu supremacia ao indivíduo. Na qualidade de consumidor, o homem comum passou a determinar o que deve ser produzido, quanto produzir e para quem produzir. Na qualidade de eleitor, o indivíduo passou a decidir quem seriam seus representantes para fazer as leis e quem governaria os negócios da nação, em mandatos limitados. Na sociedade anterior ao capitalismo e ao liberalismo, predominava o poder sem limites dos reis e dos que tinham força para submeter os cidadãos mais fracos.

No novo sistema, o mercado desempenha papel central. O tão vilipendiado “livre mercado” nada mais é do que um mecanismo que deixa apenas uma alternativa a quem deseja obter riqueza: servir da melhor maneira aos consumidores, aos menores preços possíveis. No sistema competitivo (em que há liberdade de entrada e saída) até mesmo os proprietários devem ajustar suas ações aos interesses dos consumidores. Se não o fizerem, a falência os tira do jogo e impõe perda dos seus bens.

O mercado é um sistema de voto, uma “democracia econômica”, cujo eleitor (o consumidor) é soberano e tem o poder de punir o produtor que não atenda a suas reivindicações. O mercado é uma arena implacável, pois, nela, o voto é diário. A essa democracia econômica corresponde, na esfera pública, o sistema de governo representativo, ou seja, a democracia política.

O nobre deputado melhoraria sua compreensão das coisas se lesse pelo menos uns poucos livros. John Locke, Adam Smith, Karl Marx, Ludwig Von Mises, esses quatro autores já seriam suficiente para lançar um pouco de luz na escuridão mental de sua excelência. Acho que não é pedir muito a quem pretenda executar a hercúlea tarefa de defender a criança, o jovem, os idosos, as mulheres, o emprego, a educação e a saúde.

PS! O deputado referido não é do Paraná. Caso alguém daqui tenha dito a mesma coisa será mera coincidência.

José Pio Martins, economista, é Reitor da Universidade Positivo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário